QUEBRA-CABEÇA
Peça estranha num tabuleiro sem regra
que vira e mexe
quebra
mas não se ajusta em nenhuma
métrica.
Será esse o ofício do poeta?
ser estranho ao mundo
desencaixado do todo.
Será essa a sina da poeta?
desenhar a seta
que caça ainda um rumo
com grito rouco
para ouvidos surdos.
Rejeita o vazio e o raso
- superfície de tudo.
Estranha o imposto
- normal absurdo.
Vomita a sagrada mais-valia
etiquetas escorrem pelos ralos
sonhos estéreis pasteurizados
juventude hedonizada
- amigalhada
humanidade que mofa
e finda.
Com voz rouca, insiste, denuncia:
McDonald's, Nike, Parafal
saem mais da boca dos jovens
que arco-íris, borboletas e amanhãs.
Espelho invertido da vida:
reluz mercadorias
e seus brilhos - tão humanos!
enquanto Gaza explode em fome
sangue
e vísceras
de crianças e famílias
que não vão ler essa poesia.
dispensem Fukuyama:
o fim da história se refaz a cada dia.
Até quando?
- perguntam pés rotos em trilha sem saída.
Patinar nessa morna democracia
com palavras de ordem que nada dizem
aos ouvidos de quem se indigna.
Ver pulverizada a classe que
com suas próprias mãos
- livres da exploração -
pode forjar o novo dia.
Viver a impotência de velhos caminhos
que insistem em performar alternativas
para tempos vorazes e sombrios
Assim como a pergunta
de Severino ao Mestre Capina
permanece a mesma dúvida
humana e genuína:
- Não seria melhor pular para fora da ponte da vida?
Acatar a gaiola
não pode ser alternativa para a andorinha!
ter sentido em manter-se vivo
pela grandeza da própria vida
e insistentemente
construir a aurora
que ainda não principia
Ao invés do suicídio
e do flerte com o abismo
o fim desse sistema
deve ser ofício da poesia.
26/12/2025
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