domingo, 8 de fevereiro de 2026

QUEBRA-CABEÇA

 


















QUEBRA-CABEÇA



Peça estranha num tabuleiro sem regra 

que vira e mexe

quebra

mas não se ajusta em nenhuma 

métrica. 


Será esse o ofício do poeta?

ser estranho ao mundo

desencaixado do todo.


Será essa a sina da poeta?

desenhar a seta 

que caça ainda um rumo 

com grito rouco 

para ouvidos surdos.


Rejeita o vazio e o raso

- superfície de tudo. 

Estranha o imposto

- normal absurdo.


Vomita a sagrada mais-valia

etiquetas escorrem pelos ralos

sonhos estéreis pasteurizados

juventude hedonizada

- amigalhada

humanidade que mofa

e finda. 


Com voz rouca, insiste, denuncia:

McDonald's, Nike, Parafal

saem mais da boca dos jovens 

que arco-íris, borboletas e amanhãs.


Espelho invertido da vida:

reluz mercadorias

e seus brilhos - tão humanos!

enquanto Gaza explode em fome 

sangue

e vísceras 

de crianças e famílias 

que não vão ler essa poesia. 


dispensem Fukuyama:

o fim da história se refaz a cada dia. 


Até quando? 

- perguntam pés rotos em trilha sem saída.


Patinar nessa morna democracia

com palavras de ordem que nada dizem

aos ouvidos de quem se indigna.


Ver pulverizada a classe que

com suas próprias mãos

- livres da exploração -

pode forjar o novo dia.


Viver a impotência de velhos caminhos

que insistem em performar alternativas

para tempos vorazes e sombrios


Assim como a pergunta

de Severino ao Mestre Capina

permanece a mesma dúvida

humana e genuína:


- Não seria melhor pular para fora da ponte da vida?


Acatar a gaiola

não pode ser alternativa para a andorinha!

ter sentido em manter-se vivo

pela grandeza da própria vida

e insistentemente

construir a aurora

que ainda não principia


Ao invés do suicídio

e do flerte com o abismo

o fim desse sistema

deve ser ofício da poesia.



26/12/2025


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